Ações organizadas de grupos de extrema-direita, crescimento da atuação de grupos masculinistas e antifeministas e relatos sobre a presença de organizações criminosas acendem um alerta nas universidades públicas brasileiras. As situações foram discutidas durante encontro do ANDES-Sindicato Nacional realizado nos dias 28 e 29 de agosto, no Cefet-RJ, no Rio de Janeiro.
O presidente da ADUNIOESTE, Gilberto Calil, participou da atividade representando a seção sindical, em um encontro que reuniu cerca de 30 seções sindicais. Segundo ele, as situações relatadas em diferentes regiões do país configuram um cenário que exige atenção da comunidade acadêmica.
“Uma série de situações bastante preocupantes que configuram ataques às universidades públicas e ataques às e aos docentes”, afirmou Calil ao resumir os relatos apresentados pelas entidades.
A programação oficial da reunião conjunta realizada pelo Grupo de Trabalho História do Movimento Docente (GTHMD) e pelo Grupo de Trabalho Políticas de Classe para as Questões Étnico-raciais, de Gênero e Diversidade Sexual (GTPCEGDS) também refletiu parte dessas preocupações. Entre os temas estiveram o avanço do fascismo e os ataques à vida e aos direitos das mulheres, além de um ato por memória, justiça e reparação contra o feminicídio e as violências institucionais. A violência do Estado contra populações negras, indígenas e quilombolas e a luta antirracista também integraram os debates.
Extrema-direita e ações organizadas nas universidades
Um dos principais alertas diz respeito à atuação de grupos de extrema-direita dentro das instituições de ensino, especialmente em meio ao período eleitoral. Segundo Calil, têm sido registrados episódios de hostilização contra estudantes e ataques a espaços de entidades estudantis.
“A primeira delas, e sobretudo neste período eleitoral, em várias universidades públicas estão ocorrendo ataques organizados por grupos de extrema direita, que vêm hostilizando estudantes, atacando espaços de entidades estudantis”, relatou.
Na avaliação do professor, existe também uma estratégia de comunicação por trás de parte dessas ações. Os episódios seriam provocados e registrados para posteriormente abastecer as redes sociais com conteúdos destinados a atacar a imagem das instituições públicas.
Calil afirma que o objetivo é “gravar vídeos, produzir cortes, desqualificar a universidade pública” e transformar esse material em veículo de propagação de candidaturas extremistas. Ele menciona episódios na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na Universidade Federal da Bahia e na Unicamp e ressalta que a ocorrência em diferentes instituições é “motivo de preocupação e alerta”.
Grupos masculinistas e violência contra as mulheres
Outro ponto de preocupação é a presença crescente de grupos masculinistas, red pill e antifeministas dentro das universidades. Calil afirma que esses movimentos não aparecem apenas de maneira dispersa, mas começam a apresentar formas efetivas de organização nos espaços acadêmicos.
“O segundo é a crescente presença de grupos masculinistas, red pill, grupos antifeministas, que vêm atuando, que vêm tendo uma organização efetiva no interior das universidades, que vêm propagando as mais diferentes formas de violência de gênero”, afirmou.
A questão esteve diretamente presente na programação da reunião conjunta. O primeiro dia teve entre os temas o avanço do fascismo e os ataques à vida e aos direitos das mulheres, meninas e menines. Também foi realizado um ato público no Cefet-RJ por memória, justiça e reparação e contra o feminicídio e as violências institucionais.
O local escolhido para a atividade também carrega a marca recente dessa violência. Calil lembrou que o Cefet-RJ foi palco, meses antes, do duplo feminicídio de duas servidoras públicas que foram assassinadas enquanto trabalhavam.
Para ele, o episódio evidencia uma preocupação que ultrapassa casos individuais. “Mais do que um crime de ódio, a violência de gênero, a violência contra a mulher, isso vem se tornando, terrivelmente, presente no interior das universidades públicas”, afirmou.
Crime organizado e ameaça às liberdades
Outro alerta surgido no encontro envolve relatos sobre a presença de organizações criminosas dentro de universidades. Segundo Calil, representantes sindicais mencionaram situações envolvendo cobrança de taxas de proteção e outras formas de intimidação.
“Também [houve] vários relatos de situações da presença, da internalização de organizações criminosas cobrando taxas de proteção”, relatou. Segundo ele, algumas dessas situações aparecem “muitas vezes vinculadas também com grupos de extrema direita”.
Para o presidente da ADUNIOESTE, as consequências vão além da questão da segurança. Essas práticas ameaçam diretamente a liberdade de manifestação e de organização dentro das instituições.
Calil ressalta ainda a dimensão territorial dos relatos: “Vêm se fazendo presentes em universidades de diferentes regiões do país, não é algo localizado”.
Mobilização em defesa da universidade pública
Diante desse conjunto de situações, a avaliação é de que a resposta passa pelo fortalecimento da organização coletiva e pela mobilização das comunidades universitárias.
“Isso só ressalta, reforça a necessidade da nossa organização, a necessidade da nossa intervenção em defesa das universidades públicas, das liberdades democráticas, dos direitos das mulheres, dos direitos contra todas as formas de opressão também”, afirmou Calil.
A defesa da universidade pública, nesse contexto, ultrapassa as discussões sobre financiamento, estrutura ou políticas educacionais. Os relatos apresentados por diferentes seções sindicais colocam no centro do debate a preservação da liberdade de ensinar, pesquisar, manifestar-se e organizar-se dentro das instituições.
Calil encerra o alerta defendendo a mobilização coletiva: “Seguimos juntos na luta. Com o sindicato somos mais fortes e alertas e mobilizados no enfrentamento a essas questões.”